Mar Branco II


Mar Branco II


É verdade que a criatividade nem sempre está disponível e isso revela-se sob várias condições. Duas delas muito comuns: ou é a escassez de oportunidades ou a falta de energia para a impulsionar.

Para muitas pessoas, é como voltar à estaca zero no que respeita a experiências com arte.

Para facilitar este reconhecimento, existem algumas formas de abordar o desenho em que as pessoas, no (re)início, não se sintam tão ansiosas e reencontrem gradualmente os seus próprios recursos para se sentirem mais confiantes e poderem empreender a sua criação.

A história que contei há dois artigos atrás – Mar Branco – é uma história de mais um João Sem Medo, mas que não corresponde à vida real de muita gente e, por tal, nestes casos há que dar um empurrãozinho e apetrechá-la de ferramentas para que o seu ensejo criativo vingue.

Na minha experiência e à luz dos trabalhos de Carl G. Jung, D. Winnicott e W. Bion, o facto de no Zentangle ou no desenho de mandalas serem sugeridas delimitações físicas – o traço, preto no branco – vai para além da sua definição de fronteira física e passa a representar o limite num espaço interno e pessoal. Respectivamente, os traços e o círculo propostos em ambas as técnicas vão remeter o desenhador para um espaço mais familiar e contido, um espaço que é rapidamente percepcionado e controlado, onde ele pode espraiar a sua criatividade. Um espaço mais limitado, sim, mas entendido como seguro.

Nem o mar (neste caso, o suporte de papel) é assustadoramente branco, nem os seus abismos/limites estão de imediato disponíveis para ele neles se precipitar.

Não representa apenas o arquétipo do pequeno quintal, onde se dispõem as alfaces, os alhos e os malmequeres, como poderá representar também o arquétipo da abóbada celeste que cobre e acolhe a vida na Terra, tal como uma mãe que nos seus cuidados protege e alimenta o seu bebé.

Assim existe um centro, o nosso interior (ou a ideia onde tudo é criado), e uma periferia mais ou menos alargada, com fronteiras no início convenientemente definidas, dentro das quais nos podemos expressar de uma forma mais confiante; onde nos possamos consciencializar do dentro e do fora, do alto e do baixo, da luz e da sombra, isto é, de um mundo de opostos que obedece a determinadas regras (aquele em que vivemos) e onde procuramos nos enquadrar e dar significado.

Com tudo o que isso nos traz, desenvolvemos gradualmente um sentido de organização, clareza, foco e autoconhecimento e com o tempo possamos alargar fronteiras e crescer.

No seguimento desta abordagem, o hábito minimamente frequente de desenhar faz-nos sintonizar também com o nosso corpo incluindo as suas necessidades homeostáticas e prevenir que o negligenciemos e vivamos desincorporados (por assim dizer, alheados) e sem saúde. Pode passar a ser uma forma de autocuidado e uma forma de alinhamento com a vida em constante transformação.

Uai! E como cheguei à elaboração deste artigo?

Momentos únicos com pessoas únicas!:


Um agradecimento muito especial à professora Lisa Bompastor pelas dicas bibliográficas que foram preciosas.

ruteguerreiro pinxit

Sou artista plástica na áreas de pintura e artesanato, e aliada à escrita criativa convido-vos a visitar a minha newsletter ruteguerreiro pinxit, as minhas páginas na rede e a conhecer o meu trabalho no ecrã e ao vivo. Oriento cursos e workshops dentro destas áreas para descobrir e desenvolver, em convívio, o potencial criativo de cada um. E porque adoro escrever sobre a Terra e todos os seres fantásticos que nela habitam, de vez em quando há de aparecer por aí um carocho com um livrinho na mão para ler uma história em voz alta.

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